sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012

O LUGAR DE ETHEL FENWICK NA ORGANIZAÇÃO POLÍTICO-PROFISSIONAL DA ENFERMAGEM


Tatiane Araújo dos Santos
Handerson Silva Santos
Cristina Maria Meira de Melo
Jackeline Matos Pereira
A Enfermagem consolida-se como campo profissional na Inglaterra, entre os séculos XIX e XX, expandindo-se para outros países. A face mais conhecida da institucionalização da Enfermagem é a representada por Florence Nightingale que, embora tenha dado contribuições relevantes para este campo de saberes e práticas, nunca estabeleceu como meta a profissionalização das enfermeiras. O que Florence almejou foi a prática de cuidados que possibilitasse a recuperação, a autonomia e o conforto do paciente, compreendendo a prática em enfermagem como dom, vocação, além de uma atribuição eminentemente feminina. Assim, a luta pelo reconhecimento profissional e pela organização política em Enfermagem caberia a outras mulheres que, apoiadas no legado de Florence, iniciariam uma longa luta  - como não poderia deixar de ser, dado que as guerras sempre permearam a história da Enfermagem – pela regulamentação e pelo fortalecimento político da profissão. A atuação política de uma categoria profissional vai além do seu agir técnico. Esta se dá nos atos quotidianos: ações individuais e coletivas nos espaços da profissão, escolhas éticas, participação em organizações próprias e nas diversas instâncias de representação e de comando na sociedade. A atuação profissional implica tanto na regulamentação das práticas como nas escolhas e decisões políticas na produção do conhecimento e formação das profissionais. A ação política está intimamente vinculada ao poder, compreendido como a capacidade de mobilizar outras pessoas para o alcance de um objetivo ou realização de uma ação. O poder, desta forma, pode ser exercido por indivíduos ou grupos. O exercício do poder não se caracteriza por sua coisificação ou pela posse de algo, uma vez que resulta de uma ação relacional. Assim, para o exercício do poder é necessário que se defina quem o exerce, quem o legitima e em qual esfera de atividade é exercido. O exercício do
poder constrói saberes e produz discursos. Para que este exercício se dê em um âmbito coletivo é
necessário que as pessoas, individualmente, o cedam total ou parcialmente, para assim constituir
um poder político que se materialize sob a forma de uma ação socialmente legitimada. Dessa forma, é fácil compreender que a nova profissão em Enfermagem, nos seus primórdios, precisava legitimar-se politicamente perante seus pares e a sociedade. O reconhecimento legal da formação prévia para o exercício da Enfermagem, isto é, a regulamentação profissional nesse campo e a criação de organizações que representassem as enfermeiras foram pontos importantes para o exercício do poder nesta profissão e a conformação de seus saberes e discursos como
trabalhadoras. O exercício do poder na Enfermagem, enquanto elemento para a sua conformação como
categoria profissional, vai além da conquista de bens materiais ou do reconhecimento público.  Esta compreensão, por parte de algumas enfermeiras, no século XIX, implicou no reconhecimento do papel da mulher na sociedade capitalista e ampliou a visão destas quanto aos obstáculos às práticas profissionais das mulheres e, consequentemente, quanto à elaboração de estratégias para superá-los. Portanto, só uma ação política organizada e coletiva, que extrapolasse o interior dos hospitais, seria capaz de constituir uma identidade profissional e o reconhecimento social do trabalho das mulheres e das enfermeiras. A participação política das enfermeiras necessitava ser construída, dado que o âmbito da política sempre foi impeditivo para as mulheres. A saída encontrada pelas enfermeiras para o exercício da política foi denominada por Bobbio, Mateucci e Pasquino de ativação. Esta é definida como o desenvolvimento, por parte dos sujeitos, dentro e fora de uma organização política, de atividades que lhes são confiadas por delegação. Dado que, no contexto do século XIX, ainda era negada às mulheres a atuação em espaços públicos e de disputa de poder, nem todas teriam condições para expressar e conduzir
as bandeiras de luta da profissão. Nesse cenário, como expoente da organização profissional e política em Enfermagem, surge Ethel Bedford Fenwick, responsável pela regulamentação da Enfermagem na Inglaterra, pela criação de organizações de Enfermagem tanto inglesas quanto internacionais, além de contribuir para a formação em Enfermagem em outros países. As ações políticas empreendidas por Ethel Fenwick foram disseminadas por todos os países onde a Enfermagem foi profissionalizada. Como exemplo, podemos citar a sua influência na modificação da formação das enfermeiras nos Estados Unidos da América que, até o ano de 1890, dava-se no ambiente hospitalar e sofreu transformações pela aproximação de Ethel Fenwick com Adelaide Nutting e Lavinia Dock, lideranças em Enfermagem da Universidade John Hopkins. Esta colaboração possibilitou a instalação do primeiro centro universitário de formação de enfermeiras em Baltimore, e a ideia inicial para a fundação da Liga Nacional do Ensino em Enfermagem e da Associação Americana em Enfermagem.

Nascida em 26 de janeiro de 1857, na Escócia, Ethel Gordon Manson, ainda jovem, destacava-se por seu espírito de líder reformista. Aos vinte e um anos, ao tomar a decisão de ser enfermeira, iniciou seu treinamento como estagiária no hospital infantil de Nottinghan, em 1878. Após um ano, seguiu para a Enfermaria Real de Manchester e, ao completar seu curso, foi indicada como Irmã da Enfermaria Charlotte, no Hospital de Londres. Sua ambição profissional era tornar-se matrona de uma escola de treinamento. O termo matrona (Matron) é ainda hoje utilizado, principalmente na Europa, para designar a enfermeira sénior ou chefe de serviço. No início de 1881, Ethel iniciou suas atividades como Matrona do Hospital São Bartolomeu. Na ocasião, declarou ao British Journal of Nursing que o foco do seu trabalho era a organização da Escola de Treinamento, demonstrando preocupação com a formação de qualidade para
as enfermeiras. A sua atuação em favor da profissão estava apenas começando. Sua vida pessoal e profissional tomaria novos rumos quando Ethel casou-se com o Dr. Bedford Fenwick, que desempenharia
um importante papel ao servir como apoiante e conselheiro dos projetos e ambições político-profissionais da esposa. É importante salientar que Ethel Bedford Fenwick era da aristocracia inglesa, sendo o seu padrasto membro do parlamento britânico, o que lhe proporcionou uma educação culta e refinada. Quanto ao seu esposo, as fontes consultadas informam apenas que era médico, o que nos permite inferir que era
um homem influente e, provavelmente, também membro da aristocracia inglesa. Preocupada com o reconhecimento social do trabalho das enfermeiras inglesas, Ethel discordava da apologia ningthingaliana quanto ao perfil vocacional das enfermeiras e defendia que estas tivessem reconhecimento profissional. Com o apoio do seu esposo e amparada em seu prestígio social, no ano de 1887, Ethel deu início ao trabalho de maior importância pública para a Enfermagem, com a fundação daAssociação de Enfermeiras Britânicas, sob a presidência da Princesa Helena, do Reino Unido, filha da Rainha Vitória. É possível conjecturar que a estratégia de Ethel, ao convidar a Princesa Helena para a presidência da Associação, tinha como propósito dar visibilidade à profissão e alcançar o status de legalidade e de reconhecimento federal para a enfermeira.
Seus objetivos consistiam em unir todas as enfermeiras britânicas como membros de uma profissão reconhecida, assim como fornecer registos como evidências de que tenham recebido treinamento sistemático, e para que se associem em ajuda mútua e proteção para o progresso do seu trabalho enquanto profissionais. Os objetivos da Associação Real das Enfermeiras Britânicas, traçados por Ethel, já apontavam aspectos avançados para o mundo do trabalho no século XIX: compreende a profissão da enfermeira como trabalho; demonstra a importância de sistematizar informações/dados que sirvam de sustentação dos argumentos para dar visibilidade ao trabalho; pela primeira vez, os termos trabalho e profissão apareceram associados à Enfermagem. Além disso, é nítido que se buscou distinguir as enfermeiras profissionais da grande massa de enfermeiras domésticas existentes na Inglaterra, que, em 1851, chegavam a 39.139 mulheres com idades que variavam dos 5aos 85 anos. A fundação da Associação, segundo Ethel e suas colaboradoras, era necessária para conquistar um reconhecido padrão de treinamento para as enfermeiras. Com esse intuito, Ethel fundou, em julho de 1894, na sala do Conselho Diretor do Hospital São Bartolomeu, o Conselho das Matronas. Mais uma vez, Ethel demonstrou que tinha uma visão política da organização como essencial para a visibilidade social da profissão. Em 1888, surgiu a ideia da Inscrição Federal para enfermeiras. Esta seria “[...] uma garantia para a profissão médica e para o público de que toda enfermeira cujo nome é encontrado inscrito no Registo está qualificada através de treinamento
para tratar dos doentes de maneira eficiente, nada mais e nada menos. O primeiro rascunho do projeto de lei para o registo federal das enfermeiras no Reino Unido foi redigido por Ethel, com a colaboração de seu esposo. Sua tramitação pelo Parlamento britânico, porém, sofreu oposição de enfermeiras célebres, entre elas Florence Nigthingale, além da oposição de muitos médicos e, ainda, da Associação dos Hospitais e de
alguns membros do Parlamento. A tramitação do projeto até a sua aprovação levou dezenove anos, o que demandou de Ethel e de suas apoiantes intensa articulação política para superar as derrotas e conquistar o Registo Federal das Enfermeiras inglesas.
O projeto para o registo federal das enfermeiras foi introduzido na Casa dos Comuns pelo Dr. Farquharson no final de 1903. Quase cinco anos mais tarde foi encaminhado para a Casa dos Lordes por Lorde Ampthill e aprovado na íntegra, com elogios por sua redação. Entretanto, ao retornar à Casa dos Comuns, como não recebeu o apoio necessário para fazê-lo chegar às mãos do Primeiro-Ministro, foi descartado. Outra tentativa deu-se em 1910, quando Lorde Ampthill criou e presidiu o Comité Central para o
Registo Federal das Enfermeiras, também responsável pela representação da Associação Médica e da Associação de Enfermeiras em todo o país. Ethel Fenwick e seu círculo de colaboradoras não perdiam nenhuma oportunidade para pressionar os membros da Casa dos Comuns. Cabe lembrar que, assim como Ethel, Florence e suas colaboradoras também gozavam de prestígio social e, certamente, contavam com apoiantes políticos influentes no Parlamento. Além disso, a legalização federal para o trabalho das enfermeiras representava o rompimento de um paradigma social no século XIX: o trabalho das mulheres. Após o fim da Primeira Guerra, em cujos campos de batalha as enfermeiras britânicas protagonizaram atuação elogiosa, o que lhes concedeu maior visibilidade, a luta pelo registo federal, então arrefecida no Parlamento, ganhou fôlego: a começar por um projeto apresentado à Casa dos Lordes, contrário às propostas do projeto do Comité Central para o Registro Federal das Enfermeiras Treinadas. O então Ministro da Saúde, Dr. Christopher Addison, tomou a si a responsabilidade para a aprovação do projeto
proposto pelo Comité.
Assim, em 23 de dezembro de 1919, os esforços de Ethel Fenwick lograram o sucesso almejado, uma vez que, nessa data, o Projeto de Lei obteve a assinatura real e o Ato das Enfermeiras, finalmente, foi colocado  no Livro Estatutário, tornando-se lei. Lutas paralelas ao registo federal das enfermeiras Ainda que dezanove anos tenham se passado desde a primeira tramitação do projeto para o registo profissional das enfermeiras até a sua aprovação no Parlamento, durante esse período,  Ethel Fenwick não hesitou em continuar sua luta
pela organização política, qualidade na formação profissional e visibilidade para o trabalho das enfermeiras no mundo. No ano de 1892, Ethel deu início a uma série de viagens internacionais, contribuindo com movimentos de reforma na Enfermagem. Foi eleita membro do Comitê Feminino da Comissão Real Britânica para a Feira Mundial de Chicago, EUA. Em 1893, ela representou a Associação Real das Enfermeiras Britânicas no Congresso das Representantes das Mulheres, também em Chicago. Ao retornar, inspirada no Conselho Internacional de Mulheres, apresentou, em julho de 1899, na Segunda Conferência Anual do Conselho de Matronas da Grã-Bretanha e Irlanda, sua ideia de organizar um Conselho Internacional de Enfermeiras, a qual foi aprovada por unanimidade.
Em 1901, em Buffalo, EUA, foi aprovada a Constituição para o Conselho Internacional das Enfermeiras, cujo objetivo era “[...] uma liderança autónoma das enfermeiras em suas Associações, objetivando aumentar ainda mais os padrões educacionais e de ética profissional, utilidade pública e espírito cívico de seus membros.
Fazia-se necessário criticar aparentes injustiças, como em relação ao reconhecimento, pelo Estado, das enfermeiras assistentes que, além de ter baixa qualificação na formação, passaram a competir com as enfermeiras que tinham treinamento integral. A publicação também funcionou como um instrumento para a divulgação do trabalho das enfermeiras e como importante mecanismo de pressão para o alcance do registo profissional. A intenção de Ethel era que essa publicação, de propriedade das enfermeiras, fosse editada por uma enfermeira treinada, seu lucro revertesse para as enfermeiras e seus artigos fossem escritos por enfermeiras, com uma linha editorial educacional. Esta foi a primeira publicação de Enfermagem no mundo e Ethel Fenwick foi sua editora por 53 anos, quase até o momento de sua morte. A sua habilidade com a escrita possibilitou sua eleição como presidente da Sociedade de Mulheres Jornalistas (1910-1911). Na coroação do Rei George V, na Abadia de Westminster, em 1911, ela representou a sociedade civil. Em seus artigos, Ethel, como uma voz ecoando na imensidão, implorava para que as enfermeiras se levantassem firmemente na luta por justiça, liberdade e dignidade e por melhores condições e melhor educação
A concepção e a construção de um Memorial a Florence Nightingale também são atribuídas a Ethel. Ela aproveitou o encontro do Conselho Internacional de Enfermeiras em Colônia, em 1912, e propôs instituir um memorial a Florence, “[...] ela [que] foi dotada com a inteligência de perceber que a Enfermagem deveria seguir os pressupostos da medicina científica como base de suas ações.
O projeto recebeu apoio das autoridades mundiais em Enfermagem presentes no evento, porém arrefeceram as iniciativas nesta direção diante da Primeira Guerra Mundial.
Em 1926, Ethel resolveu fundar uma escola para a formação de enfermeiras. Assim como concebera a publicação de uma revista, a escola, dirigida por um conselho composto somente de enfermeiras, deveria ser administrada para o benefício dessas profissionais registadas. Seus objetivos eram “educação profissional e cívica eficientes, segurança, proteção legal, social e
ajuda benevolente. Outra preocupação de Ethel era impedir que qualquer empregador de enfermeiras tivesse direito a uma cadeira no Conselho Diretor da Escola. Isso porque muitas enfermeiras, àquela época, estavam, segundo Ethel, submetidas a desmandos, servindo em comités que se autodenominavam Associações de Enfermagem. Isto indica que Ethel compreendia essa iniciativa como um espaço de atuação das trabalhadoras em Enfermagem, assumindo um caráter também sindical.
Após sofrer uma queda, aos 89 anos de idade, e ter fraturado o fémur, passara a sofrer fortes dores. Fora transferida para um quarto na enfermaria do Hospital São Bartolomeu. Mesmo imobilizada, Ethel fazia questão de ser mantida informada acerca das questões que envolviam a Enfermagem e sua escola de treinamento. Após cinco meses de internamento, solicitou mudança de ambiente, sendo transferida para um quarto na casa de uma amiga, a enfermeira Mabel Barber, vice-presidente do Colégio de Enfermeiras, em 6 de novembro de 1946. Em 10 de março de 1947, já aos 90 anos de idade, entrou em coma, até o dia 13, quando faleceu. A cerimonia de sua cremação contou com a presença de muitas enfermeiras e importantes representantes das diversas associações de Enfermagem, além de parentes, filho e netos.

Ao lutar pelo registro das enfermeiras, Ethel demonstrou à sociedade a importância do trabalho feminino, realizado na esfera pública, como primeiro passo para o exercício profissional, desvinculando- se o cuidado do espectro maternal e do trabalho doméstico, espaço privado ao qual se limitava a atuação das mulheres no século XIX e início do século XX. O dom e a vocação, entretanto, não foram eliminados nesse processo
de legitimação da atividade. O reconhecimento de uma profissão traz consigo todas as características do âmbito profissional: trabalhadoras precisam receber um salário por seus serviços, precisam de uma jornada de trabalho e da regulação do Estado sobre a sua atividade. Se o cuidado permanecesse entendido apenas como vocação, como mensurar o salário e a jornada de algo que é doação.
Ethel demonstrou que toda luta profissional deve ser empreendida sobre o tripé: articulação, ação
política e comunicação. A articulação e a ação política são necessárias para angariar parceiros e tornar visível a luta em questão, buscando o amplo apoio social. A comunicação, para que as enfermeiras sejam, elas mesmas, as suas porta-vozes, não deleguem esta função a nenhum outro ator e disseminem esta concepção aos demais membros da profissão e da sociedade.

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